Mercúrio e Relâmpago

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Vinte e sete. Essa incubadora de inseguranças e dúvidas. A possibilidade de entrar pra um clube e numa idade tão jovem. Você nunca consegue entender como Janis, Kurt, Amy e todos os outros se foram jovens, até você olhar sua própria mortalidade e no momento em que você está apto ao desafio de sobreviver os vinte e sete. A última chance honesta de ser jovem, imprudente e irresponsável.

É como ter dezenove de novo, o que é ótimo, já que os dezenove nunca deveriam ter sido desperdiçado com pessoas jovens o suficiente para ter apenas dezenove em primeiro lugar. Nenhuma dessas é uma ideia original. Nada realmente é e eu estou de alguma forma confortável comigo mesmo para finalmente admitir o quão fraudulentas minhas idéias foram ao longo dos anos. É como ter dezenove de novo, mas só na primeira metade. Quando completo vinte e sete e meio, não sou mais o eu de dezenove anos. Agora, de repente, tenho trinta e é ótimo. Sinto como se merecesse e mal posso esperar pra merecer de fato.

Eu venho inventando um monte de desculpas durante toda a minha vida. Eu tenho vontade de deixar a casa da minha mãe desde que eu tinha vinte anos. Ainda é uma idade muito jovem para isso no Brasil, a menos que você se case ou vá para outra cidade pra estudar. Nada disso nunca aconteceu. Tinha sempre alguma coisa. Fosse eu pagando pela faculdade que fiz na minha própria cidade, ou minha mãe perdendo o emprego e passando a depender de mim por alguns anos, fosse a nossa mudança em família pra superar o divórcio, um monte de razões que tentam criar uma desculpa para o por que de eu não estar vivendo totalmente independentemente ainda. Funciona, e muitas desculpas são para mim mesmo. Aparentemente, eu sou a única pessoa a quem eu devo satisfação por isso, e pelo visto eu peço satisfação pra mim mesmo. Sair do apartamento que eu cresci parecia ainda mais impossível do que nunca durante a pandemia.

Então uma chance de serendipidade. É outubro, 2021. Eu consigo um novo emprego, e minha mãe e minha irmã também. De repente e sem aviso, tenho vinte e sete anos e consigo sair. Eu crio planos, converso com pessoas on-line, eu procuro o lugar certo, a quantidade certa de dinheiro, a distância certa. Eu finalmente vou viver no coração da minha cidade. Tudo corre bem até que uma promessa se aproxima à distância. A empresa poderia me mandar para São Paulo, a maior cidade do país, uma megalópole global, um dos meus sonhos se tornando realidade. Eu pausei os primeiros planos, deixei de responder as pessoas on-line, comecei a procurar lugares na cidade cinza. Em São Paulo, parece não ter céu azul. O tempo voa, é quase ano novo, sem decisão, nenhuma conversa real, alguns amigos falam da ideia, mas é só isso. Eu tenho uma grande briga em casa. Não me sinto mais em casa em lugar algum. Eu fico só dormindo na minha cama velha, no meu antigo quarto cada vez mais claustrofóbico. Eu levo em conta tudo isso. É o início de janeiro, eu ligo pra uma amiga e digo pra ela “Eu não posso mais fazer isso”. Eu decido parar de manter minha vida estagnada pela promessa de uma possibilidade. Eu rejeito São Paulo, para mim mesmo. Ninguém mais sabe disso. Ninguém me pede satisfação de qualquer coisa.

Eu me encontro com Philipe, tudo parece bem. Eu falo da ideia. Estou à procura de um lugar para morar. Ele gosta da ideia. Ele poderia fazer isso. Nós vamos fazer isso juntos então. Está decidido. Quando? Dois meses parece apropriado. Vai ser abril até lá. Eu procuro muito um lugar que possamos viver juntos. Algumas coisas são específicas. Eu preciso ficar a uma distância andando da minha vida na cidade. Ele precisa de uma vaga de garagem para o carro. Alguns lugares aparecem, feito bombas sensíveis ao tempo, só para serem pegos por outra pessoa antes que eu tenha a chance de demonstrar algum interesse. Mas abril está longe. Ninguém sabe se vai chegar e eu ainda sou jovem por algum tempo. A percepção de que não podemos viver onde queremos. Uma terceira pessoa, ele sugere, e graças a deusa ele sugeriu, eu tinha medo de dizer pra ele que precisávamos de outra pessoa. Eu tenho algumas opções, idéias de pessoas que conheço que podem estar interessadas. Você é a terceira terceira pessoa com quem eu falo sobre. Eu ainda tento entender se comecei a me aproximar de você com a intenção de te trazer para essa aventura. Felizmente, já passamos disso há muito tempo. Você nunca assinou o contrato. Se for possível, você tem interesse, mas também tem ressalvas. Temos tempo para conversar, e nada realmente concreto. De repente, é abril. Tenho vinte e sete e meio. E agora estou envelhecendo a cada minuto. E quando finalmente conseguimos falar sobre o assunto, estamos todos entrelaçados em nosso progresso da terapia.

Está mais do que claro que eu tenho mantido minhas desculpas. Está claro como nunca antes que eu tenho muito medo de começar essa jornada sozinho. Eu nunca estive sozinho em nada que fiz na vida, e ainda assim algo nunca esteve tão fadado ao sucesso. Eu tenho que ligar pro Philipe, tenho que dizer pra ele que preciso fazer isso sozinho. Eu começo a procurar por lugares e, no decorrer de duas semanas, estou me mudando, esta noite, uma ruptura, a primeira ruptura que parece uma recompensa.

Não sabemos nada do futuro, e talvez essa expectativa de que pudéssemos fazer isso juntos não faça sentido em um futuro próximo ou talvez seja a coisa mais incrivelmente apropriada a fazer. Quem sabe? Por enquanto, eu quebrei o ciclo que me prendia. Eu não estou mais procurando por mercúrio e relâmpago. Mesmo que seja apenas o começo da jornada, estou começando a encontrar o que estou procurando. Talvez estivesse sempre procurando o começo da jornada.

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