Mais estranho, menos Stranger

Netflix | Divulgação

Stranger Things é a maior série da Netflix e é melhor do que muita coisa disponível na TV hoje em dia que alcança uma relevância tamanha. Isso não impede o show de ter seus altos e baixos, mas ainda forma um interessante case de sucesso. A série que estreou numa era em que a gigante do streaming reinava absoluta em seu mercado se tornou um hit por acidente e todo o cuidado da Netflix com seu IP mais rentável se mostra em todo o investimento de tempo, grana e marketing entregues de bandeja pra essa que é por pouco a melhor temporada da série até então (a primeira temporada segue sendo a melhor, sorry).

Mas o que pode ser tido como erro ou acerto nessa série? Afinal de contas, Stranger Things parece sempre ser a coisa mais importante do mundo durante as duas semanas subsequente ao lançamento de uma temporada nova, antes de termos de esperar uma pequena eternidade até o próximo lançamento (quinze meses entre a primeira e segunda temporadas, mais vinte meses entre a segunda e a terceira e incontáveis trinta e quatro meses de espera até a quarta temporada). Não é absurdo dizer que essa foi a estreia em que eu estava menos interessado na série. Mas parece que a Netflix e os criadores da série perceberam o fato consumado de como tanto o elenco quanto o público envelheceram assistindo a série nos últimos seis anos, e lançaram a temporada mais “adulta” da série até então, com elementos de terror bem executados e histórias separadas interconectadas, nem tão bem executadas assim. Stranger Things já não faz homenagem aos anos 80, talvez nunca tenha feito, mas parece viver nos anos 80, o que parece ser a desculpa perfeita para crescer desordenadamente.

A nova temporada entrega uma qualidade superior a tudo que já foi visto antes na série, em termos técnicos e de escopo, a série nunca foi maior. Os 30 milhões de dólares gastos por episódio estouram na sua cara com a qualidade da iluminação e enquadramentos (aquela cena da pista de patins), detalhes do design dos inúmeros cenários espalhados por cinco estados americanos e mais algumas cidades na Rússia, a maquiagem fantástica de Vecna, o novo e aprimorado vilão do Mundo Invertido (é de fato Jamie Campbell Bower embaixo daquela figura grotesca), a trilha sonora absurdamente oitentista, o CGI de segunda categoria nas sequências mais longas no Mundo Invertido até então e claro, as mais de 13 horas que a série leva para contar sua história em nove episódios (7 lançados em maio e outros 2 ainda por vir no início de julho).

Netflix | Divulgação

A série cresceu absurdamente, mas perde muito do que fez dela um grande sucesso em primeiro lugar. Em 2016, Stranger Things era nada mais que um suspense sobre um garoto desaparecido. Agora, a série é sobre um universo de personagens, a URSS aprisionando monstros do Mundo Invertido, Eleven (Millie Bobby Brown) se tornando a única esperança para a salvação do mundo contra forças do mal “desconhecidas”. Todo o charme que a série já teve na junção de seu elenco e no fato de ser uma história de terror de cidade pequena se perde cada vez que a edição corta pra uma história sobre Hopper (David Harbour) tentando escapar de uma prisão russa enquanto Joyce (Winona Ryder) e Murray (Brett Gelman) estão sequestrados num avião ilegal saindo do Alaska pra serem vendidos prisioneiros na Rússia, ou Mike (Finn Wolfhard), Will (Noah Schnapp) e Johnatan (Charlie Heaton) numa van de pizzaria em uma road trip pra encontrar Eleven que não leva a lugar algum e poderia ser totalmente descartada, ou até mesmo Eleven hora choramingando seus problemas por não se encaixar em sua nova escola e cidade, hora deitada numa piscina escura “assistindo” suas memórias para recuperar seus poderes. Tudo chatíssimo quando você tem um monstro humanoide e consciente matando adolescentes com o poder da mente e uma boa dose de tormento por pesadelo, ossos quebrados, sangue e olhos esmagados, aterrorizando a cidade de Hawkins, que se torna para teorias de conspiração e pânico satânico.

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O melhor de Stranger Things continua em Hawkins e em seu escopo pequeno, mesmo com a perda de metade do elenco principal da série, parte que sequer precisa estar aqui. Mas como a Netflix usa por métrica do sucesso o tempo assistido de cada atração disponível, quanto mais longo forem os episódios melhor (a média do primeiro volume da temporada é um minuto mais curta que o episódio mais longo da série até a terceira temporada). Há elementos interessantes e entrecortar as narrativas simultaneamente é melhor do que fazer episódios desconectados uns dos outros (vê-se o desastre que foi o lançamento do episódio sete da segunda temporada). O problema aqui está de fato em muito plot e pouca conexão real, não só entre os muitos plots, mas entre os personagens e nossa emoção de espectadores. Mas não é tudo problema. A série brilha e muito quando acerta. Alguns dos novos personagens são interessantes como Eddie (Joseph Quinn) e o sempre chapado Argile (Eduardo Franco), por exemplo. E o episódio 4, “Querido Billy”, é talvez o melhor episódio da série inteira, com destaque para Max (Sadie Sink), a melhor personagem da temporada inteira. Aquela cena com Running Up the Hill é a melhor coisa que a série já fez. Steve (Joe Keery) tem um dos melhores aproveitamentos da série, assim como a Nancy (Natalia Dyer) que rouba a cena e assume o controle da bagunça que essa temporada poderia se tornar. Dustin (Gaten Matarazzo) e Robin (Maya Hawke) mandam super bem quando separados porém juntos são dois personagens que servem com alívios cômicos funcionando mais como interrupção para fazer piada, o que se torna cada vez mais cansativo, não por culpa dos atores, mas pelo roteiro, em momentos mal escritos além da conta.

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Não há um limite do que é possível fazer com um orçamento astronômico e controle criativo absoluto, e os Irmãos Duffer parecem saber disso, para o bem e para o mal, criando uma temporada com muitos altos e quase o mesmo tanto de baixos, e que vai ficar na história como a temporada mais mista de Stranger Things. E pensando no que o futuro da série pode trazer, tem muita gente apostando na morte de alguns personagens importantes, Will saindo do armário, e outras teorias bizarras, fico aqui esperando mesmo que a série encontre seu ponto de equilíbrio, abandone os episódios com mais de 80 minutos e quem sabe volte a focar em coisas mais estranhas, como seu título sugere, num sentido positivo de criatividade. Toda essa expansão e momentos do passado como o já mencionado episódio sete da segunda temporada podem apontar para acontecimentos cada vez maiores e astronômicos (um mal da indústria que segue girando milhões em torno de blockbuster que misturam dezenas dos mesmos super-heróis), mas quem sabe a série encontre novamente sua força na união de seus pontos positivos, principalmente seus excelentes personagens.

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