As vantagens de ser multidão

Photo by Michael & Diane Weidner on Unsplash

A internet está falhando. Meu melhor amigo de 10 anos teve um filho. Eu não sabia que ele e sua esposa estavam esperando outro bebê. Nós não nos falamos há dois anos, desde que eu decidi sair do armário publicamente. Inclusive, uma das últimas conversas que tivemos mal pode ser considerada uma conversa, foi ele comentando um vídeo que postei sobre o assunto e sobre como me senti reprimido durante boa parte da minha vida como um homossexual na igreja. Ele comentou tudo bastante na defensiva, tentando de todas as formas garantir para sua própria consciência que ele sempre me tratou com respeito e afeto, apesar de sempre saber sobre isso. Seu novo bebê se chama Benjamin, o Ben. Essa notícia e esse nome me doeram profundamente.

Eu decidi comprar um vinho. Meu irmão agora mora em Ouro Preto, que por mais próxima de BH que seja, é uma cidade que me exige um planejamento pra viagem. Ontem postei uma sequência de fotos, incluindo a foto mais recente que tenho com ele, tirada no natal passado. Aqueles dois somos eu e ele atualmente, ao mesmo tempo em que já somos outras pessoas. Ele comentou a foto, e com isso conversamos bastante hoje. Fizemos planos pra quando ele vier passar um final de semana comigo nas férias. “Vamos no cinema”, eu disse. “E assistir Gigantes de Aço”, ele disse. “E Mad Max”, eu disse. “E vamos em alguma festa?”, ele perguntou. “Vamos no 2Black, no Viaduto.”, eu disse. Ele fraga onde e o que é o Viaduto, apesar de nunca ter ido. Ele me perguntou se eu bebo, eu o perguntei se ele já fumou, ele nunca tinha ouvido falar de brisadeiros, eu fiquei levemente aliviado. Meu guri é um adolescente. Ele me perguntou se em algum momento da vida eu vou ter o dobro da idade dele de novo. Fizemos as contas e percebemos que não, nunca mais. “Como eu mando uma mensagem privada no YouTube?”, eu perguntei. Ele descobriu que tinha um jeito, mas não achamos como fazer. “Só comenta num vídeo, opa saudade.”, ele sugere. Nós rimos. Ele não tá namorando mas tá no meio de um rolo. O mesmo comigo. É interessante poder falar sobre tudo com meu irmão mais novo. Ele não é meu irmão de sangue, e nossa irmandade nem depende do meu pai e da mãe dele estarem juntos ou não. Já são quase dez anos que ele é meu melhor amigo. “A primeira vez que nós dois vamos ser adultos você vai ter quase quarenta anos.”, ele disse. “A última vai ser quando eu tiver quase morrendo de câncer aos 68.”, eu repliquei. Ele riu da piada, achou pesada. Jogamos sinuca, online. Ele ganhou duas partidas. Falei que vou juntar minha trupe e levar ele pra jogar sinuca quando vier. A trupe somos eu, Yan, Artur e Thalles, entre todas as pessoas. Yan e eu não nos falamos direito há muito tempo.

Um pico de energia. Gustavo fez queimadinha. A mãe dele veio hoje e fez uma compra. Não preciso mais comprar batata palha. Almoçamos o fricassê que ela fez. Não cheguei do trabalho a tempo de ver ela. Gustavo também está sofrendo com a internet sem chegar a 2 mega hoje, não dá pra ver filme, não dá pra jogar. Eu cheguei faminto e cansado do trabalho. Um dia improdutivo, caótico, inconstante, entediado. O dia estava entediado, e eu entediante. Liguei pro Yan. “Vamos sair pra beber?”, eu disse. Ele não bebe vinho. Thalles começou a beber vinho, e chás. Eu e Maíra tomamos chá quase todo dia de manhã. Hoje analisamos o upgrade do plano de saúde. Yan não atendeu. Eu o chamei pra beber por mensagem de voz antes de me dar conta que deixar mensagem de voz só é algo útil no trabalho porque europeus usam isso. Fernanda está animada com a terapia. Ela é minha melhor amiga há quase dez anos. Eu estou preocupado e com medo de não conseguir dizer o que precisa ser dito.

Faço mais uma playlist depressiva. O que precisa ser dito? Será que devo dizer de como eu sempre quis ser pai mas sempre tive medo de optar por um casamento hetero normativo cristão que não refletisse (e definitivamente já não reflete) quem eu sou de verdade? Do medo que tenho de não conseguir ter uma relação romântico-afetiva que dure tempo o suficiente pra eu adotar uma criança? De como tenho receio de fazer isso sozinho? Eu nasci pra ser padrinho. Eu e meu amigo sempre falamos sobre como eu seria o padrinho do primeiro filho dele. Ele teve uma filha primeiro. O padrinho foi o irmão da mãe. Ben. Chegaste em boa hora pra ver um mundo que gira veloz e a vida que corre demais. Talvez eu nunca escreva um verso tão bom assim. Não é só sobre ter ou não um filho, porque se for, não é um medo muito consciente ou urgente. Eu jamais teria um filho com menos de trinta e cinco anos. Falta conexão real com qualquer parceiro sexual que eu possa encontrar por acaso nessa cidade. Aplicativos não fazem sentido pra mim mais, talvez nunca tenham feito. Eu troco qualquer possibilidade de sexo pra encontrar um amigo pra comer pizza. Pizza com Thalles, hamburguer com Felipe, cachorro quente com Belmiro, Subway com qualquer um dos três.

Abro e fecho o Zippo em sinal de ansiedade. Amana pergunta se eu liguei ou se foi minha bunda. “Bunda”, eu digito. Fui eu. Mas logo deixei pra lá pra não interromper. Eu liguei pra Mother também. Não tive coragem de dizer que estava mal, estranho, confuso, sofrendo, chorando. Se o Thalles tivesse a mesma habilidade do Savio de bloquear pessoas e deixar elas pra lá... Não dá pra comparar os dois cenários, claro. Termino de ler Escape from Spiderhead. O filme ficou totalmente diferente, mais divertido. O texto é mais mórbido, leva a pensar. Tento não ser ofensivo. Escrevo pra esquecer o que não quero mais lembrar. Em meio a escolha detalhada e significado exacerbado que dou a cada palavra, não esqueço o que escrevo, já não sinto o que relembro. Uma lágrima passa direto pela máscara e molha minha jaqueta. Só uma gota. Não dá pra nem pra reparar.

Penduro a roupa que trouxe da lavanderia. Deito. Esqueço. Esqueço porque durmo, e dormindo já não lembro. Por favor, não visite meus sonhos. Gosto da ideia de ir pra um mundo em que você não existe pra mim. Não estrague isso. Talvez mais um café. Meu melhor amigo de dez anos perdeu o pai. Ele faleceu há quase duas semanas, não sem antes finalmente conhecer o neto, Ben. Ben não se lembrará dessa visita, assim como eu não me lembrarei de ter pensado ou sentido tudo isso. Talvez a maior vantagem em ser uma multidão de sentimentos.

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